Um projeto nascido na Bacia do Rio Doce vem oferecendo uma nova perspectiva para a prática da ciência ao aproximá-la do cotidiano das pessoas. O Programa Ciência Cidadã, fruto da cooperação entre a mineradora Samarco e a UNESCO no Brasil, tem transformado salas de aula, quintais e comunidades inteiras em verdadeiros laboratórios a céu aberto — iniciativa que já inspirou a criação das primeiras legislações municipais de fomento à Ciência Cidadã no país.
Atualmente, o programa está presente em 10 localidades de oito municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo e, em alguns deles, vem gerando impactos que extrapolam as ações previstas inicialmente.
Um exemplo é o município de Conselheiro Pena (MG), no Vale do Rio Doce, onde o projeto é desenvolvido em três escolas municipais, com atividades voltadas ao monitoramento e à restauração de nascentes, cuidado com ribeirões e implantação de hortas escolares. O impacto positivo na cidade foi tão significativo que, antes mesmo do encerramento das atividades, o programa foi transformado no Projeto de Lei nº 047/2025, criando o Programa Ciência Cidadã Conselheirense. A iniciativa, sancionada em setembro de 2025, tornou-se a primeira legislação municipal do Brasil dedicada exclusivamente ao tema.
Outro município que incorporou o Ciência Cidadã à legislação local foi Linhares (ES), no litoral norte capixaba. No município, duas escolas e 210 alunos participam de atividades de monitoramento participativo da qualidade da água e da biodiversidade, com foco em plantas aquáticas (macrófitas) e aves da Lagoa do Interlagos, no perímetro urbano da cidade. As ações incluem ainda a catalogação da riqueza da fauna e da flora da Vila de Regência.

Em Linhares, a iniciativa passou a integrar oficialmente a política municipal de educação ambiental, tanto formal quanto não formal. A coordenação do Programa de Ciência Cidadã Linharense ficará a cargo das secretarias municipais de Meio Ambiente e de Educação.
“Desde o início, vislumbramos a possibilidade de o poder público e as comunidades adotarem o programa e o incluírem nas políticas locais. A aprovação é resultado de um processo de compreensão sobre o valor da ciência e de uma forte articulação comunitária. Mais do que números, o Ciência Cidadã representa um legado”, destaca Brígida Maioli, gerente de Meio Ambiente da Samarco.
A expectativa é que outras cidades também apresentem propostas semelhantes, criando instrumentos legais que garantam a continuidade das ações de Ciência Cidadã. Ao unir cidadãos e cientistas em iniciativas de educação, pesquisa e comunicação, o programa fortalece o monitoramento da biodiversidade terrestre e aquática e incentiva práticas de conservação e uso sustentável dos recursos naturais na região.

Seminário de encerramento
O município de Aracruz (ES), também no litoral capixaba, foi escolhido para sediar o II Seminário de Ciência Cidadã na Bacia do Rio Doce, realizado em dezembro de 2025. O evento marcou o encerramento das atividades do programa no âmbito da parceria entre a Samarco e a UNESCO no Brasil.
O seminário reuniu 170 participantes, entre estudantes, professores, pesquisadores, lideranças comunitárias e indígenas, gestores públicos e equipes técnicas de 23 municípios.
O Programa Ciência Cidadã
Criado em 2021, o Programa Ciência Cidadã integra o Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a UNESCO no Brasil e a extinta Fundação Renova, então responsável pelas ações de reparação após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).
Com a homologação do Novo Acordo do Rio Doce, em novembro de 2024, e no contexto da transição dos Planos de Ação da Biodiversidade, a Samarco assumiu a continuidade da iniciativa por meio de nova cooperação com a UNESCO.
Na última fase do programa, encerrada em dezembro de 2025, foram formados 860 cientistas cidadãos em diversas localidades, incluindo comunidades indígenas, moradores dos distritos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, em Mariana (MG), além de estudantes.
“O programa tem como característica a coprodução do conhecimento, com a participação ativa da comunidade desde a escolha das ações até a execução. Nosso papel é acompanhar para garantir que as atividades sigam protocolos científicos”, explica Tatiana Mazzo, coordenadora do projeto na UNESCO no Brasil.


































































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